Psicologia do Futsal

Fatores que Influenciam o Rendimento no Futsal

15040805144150          Konzag (1995) refere mesmo que o desenvolvimento das capacidades condicionais e coordenativas, técnicas, táticas e psicológicas, são determinantes para aumentar a capacidade geral de prestação desportiva de acordo com as especificidades da modalidade. Apesar da distinção que possamos fazer entre fatores de rendimento no Futsal para a sua compreensão, dadas as diversas configurações do jogo, o pouco espaço e elevada velocidade, todas as ações realizadas exigem uma elevada adaptabilidade dos jogadores e equipas e como tal são fortemente determinadas do ponto de vista tático, ainda que esta dependa de uma interligação adequada de todos os fatores (Konzag, 1983).

           Assim verificamos que o futsal se torna uma modalidade na qual algumas habilidades psicológicas são fundamentais para o rendimento dos atletas. Podemos definir habilidades psicológicas como as habilidades que permitem ao atleta enfrentar uma determinada situação, com confiança e consciência de que o seu corpo e mente estão preparados para obter a melhor performance (Cox, 1994). Estas têm sido cada vez mais reconhecidas como fator decisivo para o rendimento desportivo dos atletas, sendo que o treino psicológico começa a ser integrado no processo de treino (Weinberg & Gould, 1999).

          Portanto, vou abordar alguns fatores psicológicos que entendo como fundamentais para o rendimento desportivo:

  • Liderança
  • Motivação
  • Ansiedade
  • Concentração
  • Autoconfiança

Liderança

          Ter alguém a liderar uma equipa dá aos atletas o sentimento de segurança, contribuindo para o seu bem-estar físico e psicológico. Para Barrow (1977) a liderança é um processo comportamental para influenciar indivíduos e grupos, tendo em vista objetivos estabelecidos.

          Assim, o treinador é visto como um ponto de equilíbrio fundamental que tenta conjugar as exigências em termos de rendimento impostas pelo clube, com as necessidades dos atletas, que têm de ser motivados e organizados. 

Motivação

          Segundo Weinberg e Gould (2007) a motivação é um termo ou conceito geral utilizado para compreender o complexo processo que coordena e dirige a direção e a intensidade do esforço dos indivíduos. Esta ideia está subjacente na definição de motivação para a realização: “a tendência para lutar pelo sucesso, persistir em face do fracasso e experienciar orgulho pelos resultados conseguidos”.

      Becker Júnior (2000) considera a motivação fator muito importante na busca de qualquer objetivo pelo ser humano, uma vez que os treinadores, tanto nos treinamentos quanto nas competições, reconhecem constantemente esse fato como sendo o principal. Assim, a motivação acaba se constituindo elemento básico para o atleta seguir as orientações do treinador e praticar diariamente as sessões de treinamento.

        Segundo a Teoria Cognitiva da Motivação, existem dois tipos de pessoas: aquelas que são motivadas pela esperança de êxito, atribuindo os seus resultados à própria capacidade; e as que são motivadas pelo medo do fracasso, que atribuem-nos à dificuldade da tarefa ou ao acaso. Isto é, ainda que duas pessoas treinem muito para uma determinada competição, cada uma delas pode estar empenhando-se por êxitos diferentes (SAMULSKI, 1990).

       Weinberg e Gould (2001) concluíram através de uma investigação de Lopes e Nunomura (2007) sobre o processo de motivação, que os indivíduos comparam-se constantemente com os outros e valorizam os bons resultados em competições, sendo que apresentam metas orientadas para o resultado final. Os indivíduos que se preocupam em melhorar o seu rendimento técnico durante os treinos apresentam metas orientadas para a tarefa. Verificaram que no primeiro grupo prevalece uma motivação extrínseca (reconhecimento social) e uma motivação intrínseca no segundo grupo (procura do prazer da atividade).

      Um estudo brasileiro, realizado por Marta Rosolen (2006), concluiu-se que as maiores motivações das atletas á prática do Futsal foram: jogar em equipa, diversão, melhorar as habilidades, obter forma física, libertar energia, status, outras situações e finalmente fazer amigos.

Ansiedade

       Para Marti (2000), a ansiedade caracteriza-se por uma grande variedade de sintomas somáticos (tremura, hipertonia muscular, inquietação, hiperventilação, sudação, palpitações, etc). Surgem também sintomas cognitivos como a apreensão e inquietação psíquica e outros sinais relacionados com a alteração da vigilância (distração, perda de concentração, insónias).

       No âmbito da psicologia do desporto, Figueiredo (2000) citado por Gonçalves e Belo (2007) realça a ansiedade como uma das principais variáveis que interferem no desempenho dos atletas.

       Os autores Weinberg e Gould (2007) dividem a ansiedade em ansiedade cognitiva e ansiedade somática. A ansiedade cognitiva considera-se como a componente mental da ansiedade, relacionando-se com o pensamento, sendo originada por expectativas negativas sobre o sucesso ou uma autoavaliação negativa da performance. Morris, Danis e Hutchings (1981) descrevem a ansiedade cognitiva como uma perceção receosa de sensações desagradáveis sobre o próprio indivíduo ou por estímulos externos ao mesmo. Por sua vez, Cruz (1996), citando Martens et. al. (1983,1990), define ansiedade somática como uma resposta fisiológica do indivíduo perante uma situação de ansiedade cognitiva através do aumento da frequência cardíaca, de respiração “curta”, mãos húmidas, “borboletas” no estômago e tensão muscular.

Para Spielberger (1966, 1970), citado por Frischknecht (1990), podemos distinguir o traço de ansiedade (definido como um traço de personalidade, relativamente estável) e a ansiedade estado (mudança emocional, caracterizada por sentimentos de tensão e apreensão, acompanhados por um aumento significativo da atividade do sistema nervoso autónomo).

Hackfort & Schwenkmezger (1993) elege os seguintes fatores como típicos causadores da ansiedade nos atletas:

  • Reação dos espetadores;
  • O facto de ser uma modalidade de alto risco (no caso de escalada, ralis, etc);
  • O risco de lesões;
  • Alterações de clima de alimentação e de fuso horário em provas fora de casa;
  • Conflitos com o treinador;
  • Conflitos com os membros da equipa;
  • Conflitos na escola/família derivados do stress da prática desportiva;
  • Conflitos com a tomada de decisões no decorrer de ações desportivas complexas.

       Gould e Horn (1984) apud Weinberg e Gould (2008) identificaram que os principais motivos que as crianças possuem para praticar desporto são de natureza intrínseca, tais como, divertir-se, aprender novas habilidades, fazer algo que considerem bom, estar com os amigos, fazer novas amizades, exercícios e experimentar o sucesso. Os autores relatam ainda que vencer, não é uma razão que sozinha motive as crianças para a prática desportiva. Investigadores brasileiros têm relatado que os motivos pelos quais as crianças se envolvem em programas desportivos são ter alegria, aperfeiçoar e aprender novas habilidades, praticar com os amigos e fazer novas amizades, adquirir forma física e sentir emoções (Becker Jr., 2000; Samulski, 2002; Scalon, 2004).

       No estudo de realizado por João Sousa (2010) utilizou os fatores ansiedade total, ansiedade somática, ansiedade cognitiva e as variáveis anos de experiência e idade dos atletas e estabeleceu-se comparações entre elas numa amostra constituída por 12 jovens praticantes de futsal feminino (dos 12 aos 15 anos de idade). Concluiu-se que não existem diferenças estatisticamente significativas entre a maioria dos fatores e das variáveis estudadas, embora em relação ao fator “ansiedade cognitiva” e à variável “idade dos atletas” exista uma associação moderada (r = -0,570) e significativa (p ≤ 0,05).

       Num estudo de Pierce e Stratton (1980) citados por Cruz (1996), foi constatando que as maiores preocupações sentidas por 62% de 543 jovens desportistas, com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos, eram “não jogar bem” e “cometer erros”. Do mesmo modo, a preocupação com aquilo que os seus pais (11%), colegas de equipa (24.7%) e treinadores (24.9) diriam, foram também alguns dos fatores valorizados pelos atletas. De ressaltar que 44.2% dos atletas mencionaram que algumas fontes de stress os impediam de por em prática o seu melhor rendimento.

Concentração

       Eliminar as distrações e focar-se apenas no contexto desportivo é fundamental para um bom rendimento desportivo. Algumas distrações vêm de dentro de nós mesmos ― nossos pensamentos, preocupações e ansiedade. Jackson (1995, citado por Weinberg & Revisão da Literatura Gould, 1999), demonstrou por meio de entrevistas com atletas de elite que preocupações e pensamentos irrelevantes podem fazer com que os atletas percam a concentração, fiquem ansiosos e desenvolvam um foco de atenção inadequado.

       Para tentar solucionar a ansiedade que acaba por afetar a concentração do atleta é o diálogo interior, que pode tomar muitas formas, mas por conveniência o classificaremos em dois tipos: positivo e negativo. O diálogo interior positivo é um trunfo que aumenta a auto-estima, a motivação, o foco de atenção e o desempenho. Diálogo interior negativo constitui-se como crítico e auto-depreciativo e impede que uma pessoa alcance os seus objetivos; ele é contra-produtivo e gerador de ansiedade.

Autoconfiança

       Estudos indicam que a confiança é o fator mais consistente para diferenciar atletas altamente bem-sucedidos de atletas menos bem-sucedidos é a confiança (Hardy & Jones, 1990, citados por Weinberg & Gould, 1999).

       Estudos realizados com atletas de elite revelam que estes mostram forte crença em si mesmos e nas suas capacidades relativas ao sucesso. Verifica-se assim que a autoconfiança pode ajudar os atletas a estimularem sensações positivas, que facilitam a concentração, o aumento do esforço e a focalizar-se nos objetivos (Weinber & Gould, 1999).

Conclusões

      Podemos concluir que a performance dos atletas vai muito além dos aspetos físicos como a qualidade do gesto, as características ambientes, ou seja, juntamente com estes fatores físicos, os psicológicos também influenciam o rendimento desportivo.

       Atletas fisicamente dotados só terão sucesso se também estiverem bem mentalmente, pelo que acreditarem nas suas capacidades, focarem-se nos seus objetivos, não se deixarem afetar negativamente pela ansiedade, estarem motivados para a tarefa que vão realizar e terem um líder com que podem sempre contar são fatores com grande influência nestes.

Bibliografia

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